domingo, 31 de agosto de 2014

BRASILEIRO, MORRA E TORNE-SE SANTO

O brasileiro tem umas manias que são difíceis de serem entendidas por outros povos ou por quem simplesmente tem um senso crítico mais apurado. Dentre elas, particularmente, não consigo aceitar e entender a tendência a santificarem as pessoas quando elas morrem.


O sujeito pode ser o maior pilantra, mas ao morrer, imediatamente é elevado à categoria de santo da noite para o dia. Não que eu esteja defendendo que se desrespeite o momento da família e dos amigos pela perda do ente querido, longe disso, mas beatificar é demais. Respeito à fidedignidade da história pessoal do falecido deveria ser uma norma a ser cumprida.


A nossa história está cheia de personagens e episódios desse tipo. Para ilustrar melhor essa ideia, vamos citar duas figuras históricas bem conhecidas:


- Tiradentes - não era simplesmente, como querem mostrar a maioria dos nossos livros de história do Brasil, o herói idealizado, abnegado e tão comprometido com a independência do Brasil. Era um homem do seu tempo com todas as suas limitações, os seus defeitos e as suas vicissitudes. Boêmio, mulherengo, falador e oportunista de olho na oportunidade de crescimento que uma nova ordem poderia trazer-lhe. Ao ser usado como bode expiatório pela Coroa portuguesa, tendo sido o único a ser condenado à morte, foi escolhido posteriormente pelos republicanos para ser o "mártir da independência";


- Getúlio Vargas - figura histórica complexa responsável por avanços significativos como criação das bases da legislação trabalhista brasileira, uma das mais protecionistas do mundo, mas também um ditador capaz das maiores perseguições e atrocidades para manter-se no poder. Em 1954, vivia seu pior momento dos quase vinte anos como chefe de estado no Brasil, extremamente desgastado por denúncias de corrupção e por uma oposição extremamente aguerrida, que teve como um dos seus expoentes o jornalista Carlos Lacerda. Para piorar a situação, tivemos o suposto atentado à Lacerda na rua Toneleiros, na cidade do Rio de Janeiro. Todo esse desgaste leva Getúlio  a cometer o  suicídio, deixando a famosa carta testamento, que encurrala seus opositores e permite que seus aliados mantenham-se no poder por conta da grande consternação gerada no país pela sua morte. Desaparecem imediatamente  todos os atributos negativos ligados a Getúlio, eternizando-se  no imaginário popular como o "pai dos pobres".


Localmente, acontece o mesmo com algumas de nossas figuras históricas já falecidas. Quem conheceu de perto alguns deles, jura que eram pilantras, ardilosos, desonestos e capazes de tudo pelo poder. Foi só morrerem, para virarem santos e ai de quem fale algo em contrário.


É natural que a família deseje realçar os atributos positivos do seu ente querido, mas daí a mídia, de uma forma quase generalizada, ficar santificando o morto diariamente durante semanas, metralhando as nossas consciências com análises tendenciosas e que só mostram os aspectos positivos do morto, deixando de mostrar quem foi de fato a pessoa pública com suas contradições, é demais !


Só espero que quando eu morrer, possa contar com o ativismo da minha família e a benevolência da  mídia para que só apareçam as boas coisas por mim praticadas (se é que eu as fiz)  porque sendo assim, talvez seja mais fácil achar um lugarzinho no céu para curtir a minha vida eterna.



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